Chance de ter outra chance

“… tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!” 
(Trecho Extraído da obra ‘O Primo Basílio’, de Eça de Queiroz)

Ela suspirava e beijava o papel devotamente. Transbordava aquelas sentimentalidades afloradas pela música que outrora ouvia e pelas palavras que agora lia. 
De tudo o que teve um dia, era isso que lhe restava agora: o bilhete que ele antes havia deixado. 
Antes. 
Havia saído por aquela mesma porta que agora ela olhava. Seu olhar perdido no infinito da solidão. Naquele momento não poderia imaginar que seria a última vez. 
A última. 
Não que ele quisesse, ou tivesse planejado deixá-la para todo o sempre, mas assim a vida quis. 
Queria ao menos ter podido voltar, depois do tempo que deixara para ela pensar e se decidir… O tempo que antes era pouco, agora era infinito. 
Queria poder voltar e ter a resposta que tanto ansiava, aquela súplica que deixara cravada em seu bilhete, aquele pedacinho de papel que era agora a última e única lembrança que restara. 
Queria a chance de ter outra chance com ela, com a felicidade, com a vida. 


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