Nem tão maluco assim

 
Menina curiosa, já chegou me perguntando qual meu nome, quem eu era, porque era e como vim parar ali. Parecia-me inofensiva até começar com essas perguntas. Seus cabelos eram louros e olhos azuis, tão bonita quanto curiosa. Bem, bem, la vamos nós, revirar um passado que já tinha sido deixado guardado la no fundo, em um de meus bules de chá. Mas gostei dela, então acho que vale a pena lhe contar. “Fique atenta, menina”, foi o que disse antes de mergulhar fundo em minhas lembranças.
“Já faz muito tempo que estou aqui. Antes eu era um homem qualquer, com um nome qualquer e era normal. O que é ser normal? Eu não sei. Hoje, aqui, sou conhecido como maluco, louco e nem sei porque, mas também não importa. Uma coisa posso dizer com certeza, que não sou o mesmo homem normal de antes. Claro que não. La de onde eu vim, que pode até ser do mesmo lugar de onde você veio, menina, todo mundo e normal igual, têm os mesmo rostos, gostos e sentimentos – ou ate a falta deles – tudo e sempre igual.
Minha vida também era assim, uma vidinha normal. Acordar todos os dias no mesmo horário, sair de casa, pegar um ônibus lotado, apreciar a falta de paisagem ao redor, ate chegar ao meu entediante trabalho. Parecia até que haviam proibido a humanidade de pensar e ver colorido, parecia que as cores haviam sido banidas de nossa sociedade. Tudo era branco, preto ou cinza, dos uniformes dos operários a paisagem, tudo se resumia nisso: a falta de vida.
Estava cansado de tudo isso. Eu não era feliz, mas sabia que poderia ser e queria isso pra mim, assim como eu sabia que as cores não podiam ter desaparecido, elas estavam ali, todas juntinhas disfarçadas de branco em algum lugar.
Foi ai que ele apareceu, todo branquinho, com um olhar doce e ao mesmo tempo um tanto quanto desesperado. Eu o segui. Não sabia pra onde estava indo, nem muito menos quanto tempo iria demorar pra chegar. Fui mesmo assim.
Coisas muito estranhas aconteceram nessa viagem, mas isso daria uma outra longa e boa historia, que contarei numa próxima xícara de chá. O que realmente importa hoje e dizer que cheguei aqui, nesse outro pais, onde se pode tudo. Deixei pra trás todos e tudo. Recomecei. Vesti um sorriso e um lindo chapéu no dia em que cheguei aqui, decidi ser menos normal.
Chapéus…que bonitos eles são! Decidi fazer chapéus para todos, o tempo todo, de todas as cores, jeitos e tamanhos. Toda hora e hora de usar um chapéu. Nesse pais e assim que me conhecem, sou o Chapeleiro Maluco.
Eu preferiria ser conhecido como Chapeleiro Feliz, mas não quero contrariar a Rainha, que tão bem me recebeu e carinhosamente me deu esse nome. Não quero contraria-la mesmo. Pra quê correr o risco de perder minha cabeça? Se eu perder minha cabeça, como e que vou usar meus lindos chapéus?
Bom, chega de historia e de conversa, é hora do meu chá.”
Se um dia pude contar essa historia a Alice, foi porque ela fez o mesmo que fiz: seguiu o coelho branco para encontrar um novo – e maravilhoso – mundo.

Comentários

Comentários

No Comments